Jonas Gahr Store *Uma clara lição pode ser extraída das fracassadas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizadas em Genebra, no final de julho: verificou-se uma mudança de poder na arena da economia e do comércio globais. Novos Estados, com economias em crescimento e ambições políticas, estão se afirmando e se fazendo valer. Durante nove dias, houve uma série de confrontos entre os países-membros da OMC. Mas, em vez de se realizarem num campo de batalha, as novas relações de força agora são medidas em mesas de negociações, nas quais estão em jogo os direitos e as obrigações de cada uma das parte.
Durante sete anos negociou-se um acordo destinado a promover o comércio internacional, reduzir as tarifas alfandegárias e eliminar outras barreiras, com especial ênfase na obtenção de oportunidades para os países em desenvolvimento, que pela primeira vez ocuparam o centro de uma rodada de negociações comerciais globais. Os países ricos estavam ali para aceitar novas obrigações e as nações mais pobres para serem protegidas. A OMC tem 153 membros e toma decisões por consenso. Em Genebra, nós nos reunimos para realizar um último esforço em busca desse consenso.
Índia e China exigiram ali um mecanismo de salvaguarda para ser ativado em caso de aumento nas importações agrícolas. Os Estados Unidos consideraram que as condições indianas eram muito benévolas e que poderiam limitar o comércio. Os Estados Unidos e outros países, como o Brasil, a Austrália e a Nova Zelândia, querem ampliar o acesso de seus eficientes setores agrícolas ao mercado exportador. Muitas nações desenvolvidas estão, justificadamente, preocupadas com as conseqüências. Procuramos, então, chegar a um compromisso, mas Washington e Nova Délhi assim não permitiram que isso ocorresse.
O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, teve de reconhecer que havíamos chegado a um beco sem saída. Pelo menos no momento, pois é provável que tenhamos deixado preparado o terreno para uma próxima importante rodada de negociações, que acontecerá em Copenhague no próximo ano, sobre as mudanças climáticas. Nas próximas negociações, focalizadas em desenvolvimento e pobreza, os países ricos deverão estar preparados para assumir maiores responsabilidades e as nações em desenvolvimento deverão aceitar sua cota de responsabilidade.
Talvez eu tenha presenciado o colapso de uma ordem mundial. Mas, ao mesmo tempo, fui testemunha do nascimento de uma nova ordem mundial, na qual todos os países estão presentes e exigem seus direitos. Há apenas poucos anos, eram os Estados Unidos e a União Européia que decidiam o resultado desses conflitos. Se eles estavam de acordo em determinada solução, ela geralmente era aceita. Mas esses dias acabaram. Agora, ninguém pode ignorar países como o Brasil e a Índia, que, juntos, falam em nome de aproximadamente 100 nações em desenvolvimento. E pela primeira vez há um novo ator no círculo das nações importantes, aquelas que elevam a voz: a China fala como um país em desenvolvimento e, do mesmo modo que a Índia, exigiu respeito aos direitos das nações em desenvolvimento.
Embora esses países tenham tirado centenas de milhões de pessoas da pobreza, muita gente continua vivendo na pobreza, tanto na Índia quanto em toda a África, por exemplo. E há muito a se aprender sobre a China. Em conversas privadas com colegas da Ásia, ouvi que não são as exportações dos Estados Unidos ou da União Européia as que eles mais temem, mas as do gigantesco exportador chinês. Na outra ponta, países da África ocidental contam com a OMC para pressionar os Estados Unidos a reduzirem o alto nível de seus subsídios às exportações de algodão, as quais estão aniquilando a indústria algodoeira dos países africanos pobres.
Reconhecemos que a situação é séria, mas os dirigentes responsáveis devem também olhar para o futuro. Não devemos perder o que conseguimos por meio de negociações até agora. Nenhuma das soluções que delineamos nesse período terá efeito até que cheguemos a um acordo sobre o pacote todo. Portanto, devemos utilizar esse fracasso em Genebra como um estímulo para a formação de uma ordem mundial em consonância com uma nova época. Uma época que envolve mais Estados e que apresenta uma mudança no equilíbrio de poder, bem como exige novas tarefas essenciais em temas como mudanças climáticas, proteção ao meio ambiente, direitos trabalhistas e luta contra a pobreza.
* Jonas Gahr Store é ministro das Relações Exteriores da Noruega. |
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